Iniciativa pioneira da nação indígena Krahô nos anos 1990 que inspirou a criação dos Bancos Comunitários de Sementes e fortaleceu a soberania alimentar no Brasil.
No início da década de 1990, no território da nação indígena Krahô, no Tocantins, germinava algo que ia muito além do milho. Germinava um gesto de resistência.
O projeto Ampó Hu nasceu da inquietação de anciãos, mulheres guardiãs e lideranças que perceberam que as sementes tradicionais — cultivadas por gerações, adaptadas ao cerrado, carregadas de história — estavam sendo substituídas por variedades comerciais. O risco não era apenas agronômico. Era cultural. Era espiritual.
Entre os Krahô, o milho não é apenas alimento. Ele organiza o calendário agrícola, participa dos rituais, marca o tempo da comunidade. Perder o milho crioulo significaria romper um fio invisível que liga passado e futuro.
🌾 O resgate das sementes crioulas
O Ampó Hu começou com algo simples e poderoso: a busca ativa pelas sementes que ainda restavam nas roças e nas casas. As famílias trouxeram suas espigas guardadas, cada uma com nome, história e características próprias — cores variadas, ciclos diferentes, sabores específicos.
Havia milho amarelo, vermelho, rajado, branco. Havia sementes resistentes à seca, outras adaptadas a solos mais pobres do cerrado. Cada variedade representava um conhecimento acumulado por séculos de seleção comunitária.
O trabalho envolveu:
Identificação das variedades tradicionais ainda existentes
Multiplicação em roças comunitárias
Registro do conhecimento associado às sementes
Trocas internas entre aldeias
Mais do que conservação genética, era um movimento de fortalecimento da autonomia alimentar.
🤝 A parceria com a Embrapa
A partir desse processo, estabeleceu-se diálogo com a Embrapa. Pesquisadores passaram a colaborar respeitando os protocolos culturais da comunidade, contribuindo com:
Apoio técnico na caracterização das variedades
Estudos sobre adaptação e conservação
Sistematização das experiências
Foi um encontro delicado entre ciência acadêmica e ciência tradicional. O conhecimento indígena não foi substituído — foi reconhecido. Essa parceria ajudou a dar visibilidade nacional à iniciativa.
🌱 A semente que virou rede
O que começou no território Krahô atravessou fronteiras. A experiência inspirou organizações da sociedade civil, movimentos de agricultura familiar e diversas ONGs que atuavam com agroecologia e soberania alimentar.
A partir daí, multiplicaram-se pelo país os Bancos Comunitários de Sementes — espaços onde agricultores guardam, trocam e reproduzem sementes crioulas. Esses bancos se tornaram estratégia essencial para:
Reduzir dependência de sementes comerciais
Preservar a biodiversidade agrícola
Fortalecer redes de troca entre agricultores
Garantir segurança alimentar em períodos de seca
Hoje, os Bancos de Sementes são reconhecidos como ferramenta estratégica para a agricultura familiar e para a conservação da agrobiodiversidade brasileira.
🌽 Mais que milho: soberania
O Ampó Hu mostrou que conservar sementes é também conservar identidade. A iniciativa antecipou debates que hoje são centrais: soberania alimentar, diversidade genética, adaptação climática e autonomia dos povos.
A trajetória do projeto revela algo essencial: a inovação não nasce apenas nos laboratórios. Muitas vezes ela nasce na roça, na memória dos mais velhos, na prática cotidiana de quem cultiva a terra.
O milho Krahô não é apenas uma variedade agrícola. É um símbolo de que a agricultura familiar, quando conectada às suas raízes, é capaz de criar caminhos que alimentam o país inteiro.
📚 Referências e Leituras
EMBRAPA Recursos Genéticos e Biotecnologia. Experiências com conservação de recursos genéticos on farm e povos indígenas. Disponível em: https://www.embrapa.br
Altieri, M. A. (2012). Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. Editora Expressão Popular.
Santilli, J. (2009). Agrobiodiversidade e direitos dos agricultores. Editora Peirópolis.
Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Políticas de sementes crioulas e bancos comunitários de sementes. Disponível em: https://www.gov.br





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