Durante o verão, o solo do jardim enfrenta um conjunto particular de desafios: alta evaporação, maior atividade microbiana, aceleração do metabolismo das plantas e, muitas vezes, chuvas intensas alternadas com períodos secos. Nesse cenário, a compostagem, a adubação verde e os biofertilizantes caseiros tornam-se ferramentas essenciais para manter a fertilidade, a estrutura do solo e o equilíbrio ecológico do jardim.
Compostagem acelerada com temperaturas elevadas
As temperaturas mais altas típicas dos meses quentes são uma vantagem natural no processo de compostagem. O calor aumenta a velocidade de decomposição da matéria orgânica, favorece a multiplicação de microrganismos benéficos e ajuda a eliminar sementes de plantas invasoras e potenciais patógenos.
No verão, a pilha de compostagem pode alcançar facilmente 55–65 °C, faixa ideal para a fase termofílica, em que a decomposição se torna mais intensa e eficiente. Para aproveitar esse potencial, alguns cuidados ajudam a evitar problemas comuns:
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Umidade controlada: a pilha deve permanecer com umidade semelhante a uma esponja espremida. Temperaturas altas podem secar rapidamente o material, exigindo regas periódicas.
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Aeração frequente: revolver a pilha a cada 5–7 dias acelera o aporte de oxigênio e evita a compactação.
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Equilíbrio entre materiais verdes e secos: a proporção média de 1 parte de verdes (restos de frutas, podas frescas, borra de café) para 2 partes de secos (folhas, palha, serragem) mantém a relação carbono:nitrogênio ideal para uma decomposição rápida.
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Sombreamento parcial: proteger a composteira do sol direto evita ressecamento extremo e perda de nutrientes voláteis.
Com esses ajustes, o composto pode ficar pronto em poucas semanas, chegando ao jardim justamente quando a reposição de matéria orgânica é mais necessária.
Adubos verdes de ciclo curto para o verão
A adubação verde é uma prática ecológica capaz de melhorar a estrutura do solo, aumentar a disponibilidade de nutrientes e estimular a biodiversidade subterrânea. No verão, o ideal é utilizar espécies de ciclo curto e grande tolerância ao calor, garantindo rápido crescimento e bom volume de biomassa.
Espécies recomendadas para verão no hemisfério sul
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Feijão-de-porco (Canavalia ensiformis) – leguminosa rústica, de crescimento rápido, excelente para fixação de nitrogênio.
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Crotalária juncea e Crotalária spectabilis – muito usadas para recuperação de solos, controle de nematoides e adição de biomassa.
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Mucuna-preta (Mucuna pruriens) – cobre rapidamente o solo e reduz a incidência de plantas indesejadas.
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Milheto (Pennisetum glaucum) – gramínea de alto vigor, ideal para solos compactados, promovendo descompactação biológica.
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Nabo-forrageiro (Raphanus sativus var. oleiferus) – raiz pivotante que atravessa camadas endurecidas, criando canais de aeração.
Essas espécies, semeadas no início do verão, podem ser roçadas e incorporadas ao solo em 35 a 70 dias, formando uma manta orgânica que melhora a retenção de água e reduz a temperatura superficial do solo — dois fatores essenciais para o bom desempenho do jardim nessa estação.
Biofertilizantes líquidos caseiros
Os biofertilizantes líquidos são soluções nutritivas produzidas a partir da fermentação de materiais orgânicos. No verão, sua produção é beneficiada pelo calor, que acelera o processo e aumenta a disponibilização de nutrientes solúveis.
Receita básica de biofertilizante de fermentação anaeróbica
Ingredientes:
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Restos vegetais frescos (folhas verdes, ervas espontâneas, cascas de vegetais)
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1 parte de esterco curtido ou composto
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1 parte de açúcar mascavo ou melaço
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Água sem cloro
Modo de preparo:
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Encher 2/3 de um balde com os materiais vegetais picados.
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Adicionar o esterco ou composto e o açúcar mascavo.
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Completar com água, deixando espaço para fermentação.
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Tampar bem e deixar fermentar de 15 a 20 dias no verão.
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Coar e diluir antes de usar: normalmente de 1:10 a 1:20 para regas ou pulverizações.
O resultado é um fertilizante rico em nutrientes solúveis e microrganismos benéficos, ideal para fortalecer plantas estressadas pelo calor ou por períodos de estiagem.
Uso e recomendações
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Aplicar no fim da tarde para evitar perda de nutrientes por volatilização.
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Usar a cada 10 a 15 dias em jardins externos, vasos e canteiros internos.
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Evitar excesso para não saturar o solo em nutrientes facilmente lixiviáveis.
O verão transforma o jardim em um ambiente de intensa atividade biológica. Ao compreender como o calor afeta a compostagem, escolher adubos verdes adaptados à estação e preparar biofertilizantes líquidos adequados, o jardineiro consegue atuar junto à natureza, fortalecendo o solo e promovendo um ciclo mais saudável e sustentável no jardim.
Referências confiáveis
(Seleção de bases científicas, institucionais e técnicas reconhecidas)



